segunda-feira, 5 de abril de 2010

Águas de Março

Esperava pelo elevador que se aproximava lentamente, que como o habitual, era justamente aquele que se encontrava no piso mais distante do térreo. Gotas de suor brotavam incontrolavelmente de sua testa enquanto ouvia “Águas de Março” em seu aparelho de som portátil. Viu que uma senhora desconhecida se aproximava e a desejou bom dia. Esta respondeu prontamente:
- Bom dia! Nossa que calor, não é mesmo? Se bem que com esse vento todo e pelo céu parece que vai chover ainda mais esses dias.
- Nossa, tomara que sim. O calor está insuportável e está seco demais, que caia o céu pra dar ao menos uma amenizada.
- A chuva ajuda um pouco mesmo a baixar a temperatura, mas espero que não venha acabando com tudo.
- Se bem que ainda sim prefiro um clima mais ameno, tudo a este calor.
- Mas que não seja muito forte, pois como nós sabemos, a chuva pode tirar o pouco que muita gente pobre tem. Chegou o meu andar, até mais ver meu filho.
Ficou pensando que realmente pior do que perder tudo para a chuva seria apenas receber a notificação do aumento de 30% no ITPU durante toda essa calamidade urbana.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Mãe acima de tudo

O local é um simples posto de saúde, em sua sala de paredes desbotadas a maca e a escrivaninha disposta na frente da janela dominam a cena. Sentada está uma senhora portando um jaleco branco de meia idade, com beleza maternal e que expressava grande sensibilidade. Ela é respeitada por seu profissionalismo, capacidade e acima de tudo por sua boa vontade em fazer o melhor para amenizar a dor daqueles flagelados, que perfilavam esperando por seus cuidados. Alguns, com o retorno marcado, traziam-na lembranças simples como panos de prato decorados ou frutas da estação. Organizava-se entre uma consulta e outra quando a enfermeira bateu na porta e entrou sem esperar por uma resposta como mandam os bons costumes. Esta a informou de que uma paciente passava mal na espera, e trouxeram-na imediatamente a sua sala. De início percebeu que a enfermeira não havia seguido o procedimento. A médica examinou-a e constatou que a paciente havia passado mal devido ao excesso de calor, mas tinha uma ficha clínica muito complicada que acusava sua epilepsia. Receitou-lhe os medicamentos adequados ao tratamento, e ao estender a receita ao marido da combalida paciente escutou dele que duvidava da capacidade dos remédios, uma vez que acreditava que tudo aquilo que a mulher passava era simplesmente coisa do diabo e devia ter sua razão de ser. Após um suspiro a médica os explicou pacientemente da necessidade de medicação constante rigorosamente seguida conforme o prescrito.
Lembrava-se sempre daqueles rostos sofridos e de suas tristes histórias. Sabia pela sua experiência que provavelmente o marido não a compraria os remédios indicados. Ao fim do expediente, saiu do posto e ascendeu um cigarro. Deixou tudo aquilo ali para o dia seguinte e foi buscar seus filhos na escola.