segunda-feira, 5 de março de 2012

Fogão de Casa

A patroa estendeu cordialmente à sua funcionária o atestado para o remédio de sua mãe – pois sabia bem da calamidade do serviço de saúde público – sentou-se na mesa próxima ao fogão e bradou:
– Vou ter que fazer mercado de novo, como esse pessoal come!
A doméstica que já tinha toda a liberdade de conhecer a patroa há muito tempo contemporizou:
– Pra quem não tem problema de saúde e tem dinheiro ir ao mercado é maravilhoso, dá pra comprar o que tiver vontade. Ai ai...
Ao ouvir o sonoro e persistente gemido a patroa caçoou amigavelmente:
– Nossa, Maria, desse jeito não tem remédio que baste, você esta é velha demais!
Seguido de uma risada a funcionária completou:
– Ai vai nessa viu Cynthia, que eu vou é te aposentar bem aqui ó, nesse fogão!
E continuou a cozinhar o almoço enquanto a conversa persistia.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Bem-me-quer, Mal-me-quer

No tempo das donzelas em perigo, uma jovem, assim como tantas outras, sonhava com o futuro. Elas não se reuniam nas luas cheias nem queimavam soutiens, mas com as raras bonecas de porcelana fantasiavam sobre seus casamentos e aprendiam a ser meninas prendadas.
Nas tardes depois da escola ela caminhava de vestido pelas ruas de paralelepípedos para entregar as compotas que sua mãe fazia. Em uma das casas mais bonitas daquela rua um jovem sempre a esperava no parapeito da janela do piso superior com um sorriso no rosto para vê-la passar.
Desta vez, quando ela passava com o pote de doces caseiros, ele deixou cair um ramalhete de margaridas que havia colhido. Ela sorriu, entregou os doces e saiu com as flores. Pegou uma das margaridas, pensou no rapaz de olhos azuis que andava de lambreta e jaqueta de couro e começou a tirar as pétalas uma por uma bem devagar.