quinta-feira, 5 de maio de 2011

Se Meu Opala Falasse

Comprou um Opala 1978. A lataria estava impecável, já a mecânica nem tanto. Fizera uma boa compra e, portanto, havia guardado algum dinheiro a mais. Resolveu mudar a suspensão, retificar e turbinar o motor, colocar freio a disco nas quatro rodas, trocou as pedaleiras e comprou os melhores pneus aro 18. Escolheu a roda a dedo, e com alguns meses de trabalho a charanga estava pronta. Saia pela cidade à noite com os faróis apagados e as janelas abertas na maior velocidade que conseguia controlar o carro sob a luz da Lua. Era como um cavalo arredio que guardava um ímpeto selvagem. Aquilo lhe propiciava uma satisfação incomensurável e o vento que entrava pela janela tinha o sublime gosto da liberdade. Decidiu apimentá-lo com nitroglicerina e satisfazer ainda mais seu ego e anseios. O combustível do mundo não seria suficiente para aqueles canecos vorazes, contanto que algo parasse o homem ou a máquina. O destino lhe sorriu dizendo que sua hora não havia chegado, mas a ordem não o perdoou e o peso da mão de ferro arrefeceu a libertinagem. A coerção abocanhou-o pela jugular. Havia aprendido que esse desejo selvagem e passional de viver um pouco da liberdade não passava de uma tolice juvenil que não seria tolerada. O belo ronco do motor silenciava no pátio da polícia ante o eco vazio do modus vivendi, e a tolice não se revelaria fugaz o suficiente para deixar de corroê-lo por dentro.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

G-8 Homens e Nenhum Segredo

As folhas compostas em fila indiana se moviam com sincronia e pareciam abrir um rasgo verde no chão. A chuva havia cessado, e as saúvas cortavam e carregavam ordenadamente as folhas do pé de jasmim. Não muito longe dali, um Ipê roxo esbanjava suas cores e dominava o horizonte. Na via expressa mais próxima um ônibus se destacava do silêncio matinal pelo ronco e hálito de seu motor diesel, e ao passar, apenas uma sacola de plástico ficou pairando despretensiosamente no ar seguindo os caminhos do vento.
Já em lugares mais distantes dali, os índices do mercado se depreciavam ainda mais, as conjunturas atuais e uma enorme catástrofe natural continham o ímpeto dos investidores, tão ou mais vorazes que as saúvas, mas nem tão organizados. Contudo, a cotação do barril tipo Brent mantinha sua escalada de preços impulsionada por levantes em países produtores e a perspectiva de redução de oferta.
Em outro lugar, espacialmente distante, mas moralmente próximo alguns homens de preto tomavam decisões regadas a licor pesado e charutos cubanos. Assim como Golias podia se divertir esmagando aldeias, tudo parece ser uma questão de perspectiva. Se no mundo fora dos números, axiomas são sempre contestáveis, tudo passa a poder se elevar ao patamar da não generalização e da livre interpretação. Mas como afirmou um dos maiores escritores russos, se um Deus não existe então tudo é permitido. E se a ordem confere privilégios a alguns esvair-se em caos sempre vai colidir com uma teia de interesses.
Assim como alguns homens decidiram relegar almas à anarquia absoluta imposta pelo fio da foice local, que não foi esquecida pelo tempo e pelos corpos dos sobreviventes, os axiomas clamariam pela ordem, anos depois nesse mesmo continente. Contraditoriamente, os valores e o custo da falta de estabilidade iriam apoiar até o direito a subversão interna. Riscos são calculáveis, e danos colaterais previsíveis. Mas tudo em prol de afinar os acordes do grande violino. Felizmente para os tomadores de decisão, poucos meses depois apenas alguns se lembrarão do ocorrido, os que sofreram com os danos colaterais assim como os poucos que se atentaram aos paranóicos.
A luz da Lua pode ter engolido os homens e regado seus corações, até o eixo da Terra pode ter mudado e deixado todas as pessoas que conheço o suficiente para poder afirmar, ensandecidas, mas sempre existiram velhos preceitos – aguardando secretamente por serem desmistificados. E as formigas, por esse tempo, já haviam carregado todas as folhas do jasmim: futuros seres dominantes.