segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ceia

Dezembro 25, 2008 by José Saramago

Há muitos anos, nada menos que em 1993, escrevi nos “Cadernos de Lanzarote” umas quantas palavras que fizeram as delícias de alguns teólogos desta parte da Ibéria, especialmente Juan José Tamayo, que desde aí, generosamente, me deu a sua amizade. Foram elas: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”. Reconheça-se que a ideia não está mal formulada, com o seu “quantum satis” de poesia, a sua intenção levemente provocadora e o subentendido de que os ateus são muito capazes de aventurar-se pelos escabrosos caminhos da teologia, ainda que a mais elementar. Nestes dias em que se celebra o nascimento do Cristo, outra ideia me acudiu, talvez mais provocadora ainda, direi mesmo que revolucionária, e que em pouquíssimas palavras se enuncia. Ei-las. Se é verdade que Jesus, na última ceia, disse aos discípulos, referindo-se ao pão e ao vinho que estavam sobre a mesa: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”, então não será ilegítimo concluir que as inumeráveis ceias, as pantugruélicas comezainas, as empaturradelas homéricas com que milhões e milhões de estômagos têm de haver-se para iludir os perigos de uma congestão fatal, não serão mais que a multitudinária cópia, ao mesmo tempo efectiva e simbólica, da última ceia: os crentes alimentam-se do seu deus, devoram-no, digerem-no, eliminam-no, até ao próximo natal, até à próxima ceia, ao ritual de uma fome material e mística sempre insatisfeita. A ver agora que dizem os teólogos.

Publicado em O Caderno de Saramago

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

À Luz de um Bolero

- Vô, como é ser casado? Você e a vó são felizes?
- Ah garoto, as pessoas agem por motivos diferentes. Alguns se casam por costume, outros por interesse, amor ou ainda por medo de ficarem sós. Na minha época era muito diferente de como as coisas são hoje... Eu e sua avó já nos conhecíamos, mas naquela noite ao som daquele bolero, ela estava simplesmente deslumbrante. No dia seguinte a levei ao teatro. Ficou ao meu lado durante todas as dificuldades e eu a suportava com respeito e carinho. Sempre a amei de mais. Criamos nossos filhos. Mas também existem momentos quando seus sonhos de aventuras vão escoando pelo ralo, crescem as responsabilidades e você não consegue nem ao menos ter um minuto tranqüilo como gostaria.
- Mas então, é uma coisa boa ou ruim ser casado?
- Não quer dizer que é bom ou ruim, é uma convenção. Tem certas coisas nessa vida, meu filho, que não precisam ser ditas, elas falam por si próprias. O companheirismo, a amizade o carinho é algo que se der certo é maravilhoso. Mas mesmo assim sempre tenho a impressão de que é preciso escolher entre o indivíduo e o casal, e por isso renunciar. Todos nós temos dúvidas (ao fundo, o pequeno rádio de fita tocava Quizás, quizás, quizás). E independentemente da sua escolha de ouvi-los ou não, nessa vida sempre vão tocar diferentes boleros pela noite.